Não adiantou de nada todo aquele mistério. Todo aquele silêncio. Não adiantou de nada fingir que não existia um ponto final e termos ido para cama, numa transa sem sabor, naquela lastimável noite de natal. Não adiantou de nada. O tempo passou. Passou da mesma forma. Tão assim, de repente. E sempre foi assim, você se lembra? Sorriamos e de repente, já não sorriamos mais. O sorriso passava, como o tempo, que vive passando. Alimenta-se das passagens. Apenas delas.
Veja bem: suas mentiras, suas transas perdidas, suas soluçadas, suas travessuras, suas declarações e todas aquelas suas juras perdidas, tudo isso, de que adiantou? De nada. Tudo, enfim, passou.
Lembro-me pouco do seu rosto, e menos ainda daqueles teus beijos mentirosos. Alguns outros pequenos detalhes já foram esquecidos também. O tempo levou as lembranças que eu mais me orgulhava em manter as sete chaves. Levou tudo.
Mas o tempo é previsível. Todos nós sabemos que ele passará, cabe as marionetes (nós) de tudo aproveitar. Por isso gozei muito, e pude sentir o seu tesão naquela noite quente de duplo adultério. O seu quanto meu. Por isso fiz questão de notar cada gota do seu medíocre suor. Fiz questão de fotografar na memória os momentos que seus olhos reviravam-se e os instantes precisos em que seu diafragma era pressionado, forçando sair da sua boca gemidos calorosos. Eu reparei.
Muitos se arrependem das coisas que fazem, ou deixam de fazer. Outros se satisfazem por muito, ou por muito pouco. Outros, os iguais a mim, esperam uma vingança calma, criada pelo tempo. E ela realmente chega. Observe só essa sua vida completamente na contramão.
Wesley Lima
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